O local, o mais impróprio que se pode imaginar, foi a Biblioteca da Faculdade de Direito - Data: 25 de janeiro de 1885 - Tudo feito a murros e empurrões... - Chamaram a atenção as abóboras colossais... - O primeiro martelo-pilão a vapor - A grande coroa de Faber & Filhos - No dia inaugural subiu a mil o número de visitantes!

PEDRO CUNHA

 

O Coronel Antônio Roost Rodovalho foi o primeiro presidente da Associação Comercial de São Paulo e uma dos organizadores da primeira exposição 180industrial de São Paulo. 69 anos depois, uma nova exposição, "um pouquinho maior", abre-se no grande parque Ibirapuera.
 
Agora que se inaugura a maior exposição comercial e industrial já organizada entre nós, é oportuno indagar quando e onde teria sido realizada a primeira que houve em São Paulo. Pois, não havendo prova em contrário, tenho para mim que a primeira - Primeira Exposição provincial, como se chamava -, feita por iniciativa da Associação Comercial e Agrícola de São Paulo, com grande solenidade, abriu-se a 25 de janeiro de 1885. E foi instalada no lugar mais impróprio que se pode imaginar para um certame dêsse Gênero: na biblioteca da Faculdade de Direito! "Triste cemitério bibliográfico, que há tanto tempo não presta tão valioso serviço" - escreveu maldosamente, noticiando o fato, o jornalista Américo de Campos.

A Associação tinha-se fundado recentemente e de sua diretoria faziam parte as mais representativas figuras do comércio e da indústria, como o conselheiro Antônio Prado, Eduardo Prates, Manuel Lopres de Oliveira, que tiveram a seu cargo a organização do certame; Duarte Rodrigues, J. Ferreira dos Santos, Francisco de Oliveira e Silva, e Proost Rodovalho, cabendo a êste último a presidência. A exposição foi a primeira e vigorosa manifestação de vitalidade da novel Associação, constituindo, a julgas pelos comentários e notícias publicados dias seguidos pelos jornais, um verdadeiro acontecimento na vida da então pacata cidade. Isso, não obstante tratar-se de uma iniciativa levada a efeito através de inúmeras dificuldades, da premência do tempo de que os organizadores dispunham para desempenho de sua tarefa e da exigüidade de espaço com que lutaram. "É - diz uma das notícias - uma exposição à americana, feita a murros e empurrões, a correr. E' tôsca a disposição dos objetos, mal ordenada; solas, fotografias, abóboras, desenhos, malas, tijolos, plantas, vitrinas, tudo em agrupamento casual, revelando bem que a falta de tempo e a falta de espaço presidiram à aquisição e coordenação dos objetos".

 
A Faculdade de Direito de São Paulo como era em 1885. Naquele tempo a escola funcionava no prédio do convento de São Francisco. Foi aí que se realizou a primeira exposição industrial da cidade. Diante da Faculdade vê-se o tradicional "território livre" do largo de São Francisco, por onde trafegavam pachorrentos carros de bois, sem prever o quão histórico se tornaria êste lugar.
 
Era assim descrita a exposição por um noticiarista da época: - "Desde a escada que conduz ao vestíbulo há diversas plantas de adôrno, entre as quais algumas de certa curiosidade. Além das plantas de adôrno e de umas abóboras colossais (sic), há uma bela coleção de plantas da Chácara Japonêsa, dispostas em degraus; trabalhos de cêra, velas, círios, etc. da Loja do Japão; vitrinas com ferragens, uma do sr. Fabian Elichalt, outra do sr. Augusto Adriano, de Mogi Mirim; graxas de uma fábrica de Piracicaba, do sr. João José da Silva; peneiras de arame de uma fábrica de Limeira; utensílios de ferro do Ipanema, exposto por Daniel Krauss; couros da fábrica de cortume do sr. José Antonio Coelho; uma caixa com tampo de vidro contendo uma grande corôa de bronze (pêso de 250 quilos) da fábrica Faber & Filhos, de Campinas, destinada a ser remetida ao monumento de Garibaldi, na Itália; um ventilador de ferro; a máquina lotérica Independência, do sr. E. Ascagne; um vitrine de fotografias da casa Henschel; vasilhas de barro vidrado de Taubaté; telhas francêsas (imitação), cal, etc. da fábrica Proost Rodovalho, nos Perús; malas de madeira, zinco e de sola, da fábrica dos srs. Silva Capela & Cia.".

O discurso inaugural foi proferido pelo conselheiro Antônio Prado e é uma peça notável em que os estudiosos das coisas do passado encontraram elementos preciosos para apreciação de fatos da maior importância histórica social, política e econômica que ocorreriam depois. Êle alude, por exemplo, às dificuldades com que lutaram os organizadores, como provenientes "das preocupações do espírito público, próprios da época que atravessamos" (evidentemente, a luta pela República); às vantagens da substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre, estimulando o aperfeiçoamento da produção"; e às vantagens da transformação operada na vida agrícola, quando os fazendeiros, forçados pela libertação dos escravos e obrigados ao emprêgo do braço alienígena, compreenderam que "melhor do que produzir muito, seria produzir menos para ganhar mais" para terminar afirmando que "os produtos agrícolas, industriais e manufaturados, que a exposição continha "não nos envergonhariam pela sua qualidade nas mais importantes exposições dos Povos cultos". Muitos daqueles produtos, por sinal, se destinavam à Exposição de Antuérpia.

Além dos produtos acima mencionados, figuravam nessa Primeira Exposição Provincial de São Paulo, no dia de sua abertura, amostras de açúcar de dois engenhos centrais e duas fábricas particulares: algodão, fumo e alguns gêneros alimentícios, bem como uma coleção de vinhos fornecida por dez municípios; produtos industriais de seis fábricas de tecidos de algodão, uma de chita, duas de chapéus e três camisarias; óleos minerais de Taubaté e goma elástica de mangabeira.

 

Conselheiro Antônio Prado. Êle foi o primeiro prefeito da cidade que mais cresce no mundo. Foi também, um dos mais entusiastas realizadores da primeira exposição industrial de São Paulo. Já nesta época manifestava-se o senso de organização da nossa gente bandeirante.
 
O que mais importante se via, porém, se não de todo, aliás exíguo, espaço da biblioteca da Faculdade de Direito, eram as amostras de café, que somavam 300, sendo 85 sacos procedentes do município de Pirassununga, num conjunto organizado pelo sr. Mota Júnior que já o havia exposto no interior; 154 remetidos pelos comissários de Santos e 61 de municípios diversos.

Feita, como dissera o cronista, a murros e empurrões, no dia em que abriu a Exposição não pôde apresentar tudo o que dispunha. Assim, só dias depois, a 1 de Fevereiro, pôde oferecer ao público um outro importante aspecto das nossas atividades industriais, Foi quando, em pavilhão próprio ocupando uma área de 160 metros, a Fábrica de Ferro de Ipanema deu a conhecer seus produtos.

"A entrada - relatam as crônicas daqueles dias - via-se um grande martelo-pilão a vapor, o primeiro construído no país, podendo, com cinco atmosfera de pressão, dar uma pancada equivalente a 5.000 quilogramas". Essa fábrica permaneceu isolada do resto do território do Estado até 1878, quando a Sorocabana chegou ao local em que se instalara para aproveitamento das jazidas descobertas em Araçoyaba por Afonso Sardinha, em 1590. No momento em que seus produtos puderam aparecer aos olhos admirados dos paulistas, sua produção era de três toneladas de ferro guza cinzento, parta da qual se destinava ao arsenal de Marinha da Côrte e à estrada de Ferro D. Pedro II (hoje Central do Brasil), ficando a outra parte para ser transformada em peças de ferro fundido. E nesse momento, traziam os jornais uma notícia alviçareira: a de que o govêrno havia autorizado a delegacia do Tesouro em Londres a gastar nada menos de trinta e cinco contos na aquisição de máquinas para melhorar o equipamento da fábrica...

Relativamente ao número de pessoas que passaram pela biblioteca da Faculdade de Direito e lá puderam contemplar aquelas colossais abóboras que tanto impressionaram o noticiarista, nada se sabe. Sabe-se apenas que, no primeiro dia, a um jornal "constava (sic) ter sido de mil o número de visitantes".

A realidade, afinal, patenteada naquela já distante mostra de produtos agrícolas e industriais, é que São Paulo, graças à fibra de seus filhos e à cooperação dos que recebe em seu seio, já havia, naquele tempo, iniciado a marcha para a conquista do lugar que hoje lhe cabe, de maior parque industrial da América e de um dos mais adiantados centros culturais do continente.








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