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ARTE DE CURAR NO VILAREJO DE PIRATININGA | Prof. C. A. LIBERALLI da Universidade de São Paulo A
ausência de médicos legalmente habilitados foi a regra, em São Paulo de
Piratininga, até meados do século XVII. Mas, se foi inevitável o exercício,
que hoje diríamos ilegal, da Medicina, ficou todavia afastado o emprêgo
da Medicina mágica, em virtude da influência do jesuita. A Medicina pós
pagés, tão florescente pelos Brasis, utilizava um mínimo de recursos farmacoterápicos,
apesar do seu decantado conhecimento, na realidade bastante duvidoso, das
propriedades medicinais na flora nativa. O uso de exorcismos e encantamentos
constituía o grosso das suas práticas terapêuticas. Mas, em Piratininga,
desde logo, o abaré afugentou o pagé. "Nenhum dêles comparece diante de
nós porque descobrimos os seus embustes e mentiras", testemunha Anchieta.
Ficou o jesuita como único curador. Não fizera estudos especializados, os
quais aliás, pouco valiam, nesse tempo. Quando, na própria Metrópole, os
médicos diplomados representavam insignificante minoria em relação aos profissionais
"idiotas", aprovados pela fisicatura-Mor, não é de estranhar que na longínqüa
colônia não o houvesse. Foi na conjugação dos caracteres de médicos das
almas com os dos corpos que os missionários de Jesus assentaram a sua poderosa
influência sôbre os primitivos habitantes, íncolas ou colonos, do Brasil
quinhentista ou seiscentista.A rigor, não se poderia qualificar de ilegal o exercício da Medicina pelos jesuitas. A companhia obtivera do Papa Gregório XIII um breve que lhe dava privilégios na arte de curar. Os extensos estudos na ciência natural da época, aliados à prática árdua que lhes proporcionava a catequese, tudo isso ajudado dos recursos psicoterápicos do sagrado ministério, faziam com que realmente tivessem êxito no mistér de médicos e cirurgiões. "Neste tempo em que estivesse em Piratininga servi de médico e barbeiro, curando e sangrando a muitos daqueles índios, dos quais vieram alguns de quem se não esperava vida, por serem mortos muitos daquelas enfermidades" é ainda Anchieta quem fala. Era a sangria o recurso, não heróico, mas trivial, da Medicina do tempo. Os jesuitas - como testemunha Simão de Vasconcelos - a princípio hesitaram em sangrar, "pelo perigo da irregularidade". Essa "irregularidade" não se referia ao exercício ilegal de uma atribuição médica, o que não teria sentido, mas a uma irregularidade canônica: "A Igreja detesta o Sangue". Deu-lhes reposta o mesmo Santo Inácio dizendo que "a tudo se estendia o bôjo da caridade". "De maneira que os índios me tinham muito crédito - prossegue Anchieta - maximè porque eu lhes ocorria as sua enfermidades, e como algum enfermava, logo me chamavam, ao quais eu curava a uns com levantar a espinhela, a outros com sangrias e outras curas, segundo requeria a sua doença, e com o favor de Cristo Nosso Senhor achavam-se bem". Ao lado, porém, da Medicina jesuítica, começava a aparecer a leiga de que vai exigir regulamentação no progresso da vila. De fato, em 1579, a Câmara de São Paulo resolveu criar o cargo de "juiz do ofício dos físicos" para pôr côbro à onda de leigos, que sangravam, tratavam e preparavam mesinhas de todo o gênero, sem nenhuma espécie de habilitação, Mas, para ocupar o cargo, o "médico" mais competente que encontraram na vila foi o barbeiro Antonio Rodrigues que, como os fígaros da época, também exercia a pequena cirurgia. A loja do barbeiro era o verdadeiro consultório médico-cirúrgico, Nelas sangrava-se, recebia ventosas, sanguessugas e clisteres, abria abcessos, extraía dentes e sofria curativos o paulistano dos séculos XVI, XVII e XVIII. As funções que couberam a Antonio Rodrigues, "homem experimentado e examinado", eram as de examinar, por sua vez, todos os pretendentes ao ofício de cirurgião, passando-lhe a respectiva licença. E' de presumir-se que não fôsse considerável o número de candidatos a barbeiro-cirurgiões, sem mais saber que o "de experiência feito", que houvessem passado pela banca de Antonio Rodrigues, o qual, trinta anos depois, em 1609, ainda continuava ocupando o cargo. Aliás a Câmara guardara-se de proibir que, em ausência de licenciados, em caso fortuito, ou em seu próprio domicílio, qualquer pessoa pudesse fazer as ditas curas ou sangrias. Apenas regulara o "exercício profissional". O instrumental dos barbeiros-cirurgiões de Piratininga era dos mais rudimentares. Constam dos inventários explorados por Alcântara Machado, os de Matheus Leme e de João da Costa, no século XVI. Deixou primeiro "uma navalha velha, uma pedra de navalha, uma tesoura de barbear, cinco lancetas em que entra uma agulha, uma caixa onde está a botica, três ferros de botica, seis ferros de tirar dentes, onde entra uma alçaprema e um boticão e um escarnador e dois alicates e um botador". Do segundo eram "um estôjo com uma tesoura e duas navalhas e uma pedra e um pente; outro estôjo de cirurgião com seis lancetas e uma agulhas e uma pinça e um cautério; dois arratéis e meio de azougue; um boticão e dois encarnadores e mais dois ferros como tenazes". "Com isso - pondera Américo R. Netto - qualquer dos herdeiros favorecidos poderia improvisar-se técnico-cirurgião. Simples questão de sorte ou de audácia, ou de uma e outra combinadas, que podem ser fàcilmente sumariadas: a boa vontade ou a indiferença da Câmara local". Precária embora, em doutrina e aparelhagem, foi a Medicina empírica que se habituaram, desde o primeiro estabelecimento no planalto, os habitantes de Piratininga. Apenas a fé no poder das relíquias e da oração reforçava as práticas objetivas da terapêutica médica e cirúrgica. Afastado o pagé pelos inancianos, poucos germes ficaram para a difusão dos tratamentos superssticiosos do indígena, Sòmente muito mais tarde, com a escravidão africana, é que se viria infiltrar, a pouco e pouco, no inculto ambiente colonial o emprègo de métodos mágicos e sobrenaturais, com finalidade médica. Aliás, em todo o Brasil, só se difundiram tais práticas de feitiçaria médica depois da extinção da Inquisição. "Porque - relembra Ancântara Machado - embora amortecida pela distância, a atividade do tribunal de Lisboa se fêz sentir em nosso meio". Mesmo no século XVI, o padre Luís da Grã, como assessor do Comissário do Santo Ofício para o Brasil prende em São Paulo remete para Lisboa o "hereje" francês Luís Cointa. Daí o se ter limitado provàvelmente a Medicina mágica a inocentes exorcismos como aquêle, profilático, que os bandeirantes paulistas do século XVII pronunciavam "para limpar os caminhos" antes de empreenderem a marcha das suas entradas: "Em nome de Deus Padre, em nome de Deus Filho, e em nome do Espírito Santos, ar vivo, ar morto, ar de estupor, ar de perlesia, ar arrenegado, ar excomungado, eu te arrenego em nome da Santíssima Trindade". |
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