Quando São Paulo era rodeado de chácaras - Uma denominação cuja origem provocou debates - O português José Brás e o nome do bairro que beneficiou.

O São Paulo antigo - talvez haja quem não saiba - era quase todo cercado de ricas e bela chácaras que ficavam a pouca distância do largo da Sé. E isso durou até fins do século passado. Tanto que as tabelas de carros e tílburis de 1891 ainda fazem referência a algumas delas, "que serviam como limites a zonas ou seções dentro das quais se cobravam determinados preços". A Avenida Brigadeiro Luís Antônio, por exemplo, foi aberta nas terras da chácara do Barão de Limeira. A chácara do Sertório, que ficava entre o Matadouro da Pólvora e a atual rua Abílio Soares, ficou depois sendo as ruas Pedroso, Maestro Cardim, Alfredo Elis, Martiniano de Carvalho, Artur Prado, Paraíso e outras. A chácara do comendador Luís Antônio de Sousa Barros foi loteada para servir de passagem à avenida São João, ao largo do Paissandú, à rua do Seminário e à praça do Correio. E o que aconteceu com essas aconteceu também com muitas outras. E tudo isso aconteceu com a proclamação da República, quando, segundo Antônio Egídio Martins, quase todos os donos de chácaras antigas dos bairros de Santa Ifigênia, Bom Retiro, Brás, Consolação, Liberdade e Cambuci, mandaram abrir ruas, avenidas, alamedas e largos em suas terras. Não só nesses bairros, como também nos de Higienópolis, Jardim Paulista, Mooca, Pari, Ipiranga, Barra Funda e Água Branca, "onde enormes áreas descampadas foram recebendo arruamento e loteação".

Até 1893, ali perto do Gasômetro, cortada pelo Tamanduateí, ficava a famosa chácara do Ferrão, também conhecida por chácara da Figueira. Pertenceu primitivamente à marquesa de Santos, e por isso se tornou famosa. Era também famosa por possuir, em suas terras seculares, gigantescas e frondosas figueiras, considerada a maior e mais velha de São Paulo, derrubada em 1905. A árvore macróbia, contemporânea do São Paulo dos primeiros tempos, serviu, durante muitos anos, de abrigo aos viandantes que ali trocavam de roupas, lavavam-se e preparavam-se para subir a ladeira do Carmo e chegar ao largo da Sé. Um dia, resolveram, com o protesto de tôda uma população, pô-la abaixo e levaram mais de um mês no trabalho insano!


JOSÉ BRÁS TEVE O SEU CARTAZ...

Com a morte da viúva Domitília de Castro, em 1867, a famosa propriedade passou a ser de Brasílico de Aguiar e Castro, filho mais moço da marquesa.

Brasílico de Aguiar e Castro ali, naquele recanto da Várzea do Carmo, viveu até morrer, em 1891. Figura simpaticíssima, teve, em conseqüência, importantes amizades. Morando ali na beira da estrada, o nome de Brasílico teria tomado conta do bairro. A chácara já não era mais conhecida como chácara da marquesa, mas do Brasílico, ou, num diminutivo gracioso, chácara do Brás... E o nome do Brás teria abrangido o local, o bairro todo. Há quem afirme que, por isso, nasceu a denominação que chegou até nossos dias.

A foto parece de 1890. No centro, parte das arcadas do antigo Mercado

Veio, porém, o historiador Nuto Santana, com a sua palavra autorizada de abalizado estudioso, e refutou esta e outra questão também em voga: a de Batista Pereira, que queria que ali fôsse um vestígio da passagem demarcadora do patriarca Brás Cubas, fundador de Santos, em meados de agôsto de 1567. E Nuto Santana garante-nos que o nome Brás nasceu do nome de português chamado José Brás, que teria residido, pelas alturas do século 18, entre o Gasômetro e o largo da concórdia, numa vasta propriedade agrícola, que ali possuía. Segundo nos informa, o tal José Brás, donde provém a denominação do lugar, foi pessoa prestante, continuamente utilizado pela governança na direção de alguns serviços públicos.

O prestimoso José Brás tão entusiasmado ficou com o lugar em que vivia, que resolveu, um dia, mandar, por sua conta, reconstruir a capelinha ali existente, isto em princípios do século passado, A capelinha inaugurada em 1803 pelo tenente-coronel José Correia de Morais tinha a invocação de S. Bom Jesus de Matosinhos.

Aquilo por ali continuou a ser o Brás, em homenagem a José Brás. Há documentos da época que fazem referências a tal, como por exemplo neste que se fala das despesas com bexiguentos: "Dinheiro para o preciso de outra bexiguenta, de miudezas, $920; a 4 carregadores, que a levaram do lugar chamado José Brás, $960".


E A CHÁCARA VIROU BAIRRO

Emílio Augusto Zaluar descreve assim a sua chegada: "Entramos finalmente em São Paulo pelo lugar chamado Brás. E' uma dos arrabaldes mais belos e concorridos da cidade, já notável pelas elegantes casas de campo e deliciosas chácaras onde residem muitas famílias abastadas, ao lado todavia de alguns casebres e ranchos menos aristocráticos, mas que nem por isso deixam de formar um curioso contraste".


Esquina da Rua Silveira Martins, em
direção ao Brás, em 1934. Em plano
médio, pode-se ver o prolongamento
da atual avenida Rangel Pestana.
Foto tomada perto do então Aterrado do Gasômetro, em direção à Colina central, aproximadamente em 1916. trata-se da famosíssima Várzea do Carmo, hoje ocupada pelo Parque D. Pedro II. Como se vê, já se começava a delinear o atual Parque. Ao fundo, à direita, vê-se, na Colina Central, o convento do Carmo. O flagrante foi obtido quando se atacavam as obras do atêrro ao aterrado, afim de acabar com as possibilidades de inundações, que neste local, antigamente, eram freqüentes.


Junius, em suas "Notas de Viagem", falando sôbre a zona do Brás, diz-nos: "Esta última era uma área de casas pequenas, acanhadas e sombrias, com as divisões" da antiga edificação" e quase sempre térreas; sem lojas de moda nem alfaiates ou cabeleireiros famosos; sem hotéis nem restaurantes de luxo; com uma livraria só - a pequena, de Dolivais; com moradores melancólicos, que mantinham "os mesmos hábitos e costumes antigos"e que em geral não freqüentavam os teatros, pois às oito da noite fechavam a porta da rua e iam dormir".

"Sempre sitiado pelas cheias do Tietê e do Tamanduateí, o Brás foi, durante muito tempo, apenas a estrada de São Paulo para a Penha - observou Afonso A. de Freitas - com a chácara da Figueira em um extremo e a do Tatuapé no outro". Mas vista do Carmo a coisa era outra, na recordação de Bernardo Guimarães no romance "Rosaura a Enjeitada": "A capela de São Brás, com o seu campanário branco e aquelas casas dispersas pela planície, exalam um perfume idílico que enleva a imaginação".



Foto de 1860. Êste é o Largo do
Brás... A casa têrrea, à esquerda,
era abrigo de desamparados do Mons.
Anacleto Ribeiro. Hoje é um arranha-céu.
O primeiro sobrado, à direita, ainda existe,
reformado, na esquina da rua Piratininga.
Na outra esquina, o sobradão que
pertenceu á família Jordão e onde
hoje está o Grupo Escolar Romão Puiggari.
Uma visão moderna, mas não recente, do bairro do Brás. Embora a fotografia não seja atual (parece que foi tomada há cerca de vinte anos), pode-se verificar perfeitamente o desenvolvimento fabuloso que as fábricas deram ao Brás, valendo-lhe o apelido de "a terceira cidade do Brasil".


José de Alencar, em "Sonhos de Ouro", refere-se ao Brás assim: "um dos mais pitorescos arrabaldes da capital de São Paulo".

Foi ali, no bairro em formação, que, pelas alturas de 1868, o poeta Castro Alves sofreu grave acidente. Trazia a espingarda debaixo do braço, ou mais provàvelmente a tiracolo, o cano voltado para o chão. Estava sòzinho e ia caçar. Quando tentou transpor uma valeta, ao dar um salto eis que a arma disparou acidentalmente, indo tôda a carga cravar-se-lhe no calcanhar. Com grandes dificuldades, esvaindo-se em sangue, conseguiu atingir uma casa próxima. Dali foi transportado por amigos à moradia do dr. Lopes dos Anjos, seu conterrâneo e médico, residente à rua do Imperador. Então, começou o seu longo martírio, que o levou à morte...








A revitalização da Barra Funda
Tatuapé e o desenvolvimento da Zona Leste
São Paulo, zona a zona





Foto de 1860. Chácara Bresser, conhecida como Chácara Brás.


Foto tirada em 1860. A rua é a primitiva rua do Brás, atual Av. Rangel Pestana. Ao fundo, o arvoredo da Chácara da Figueira, que pertenceu à Marquesa de Santos.


O antigo Mercado Municipal. Ao fundo o caminho que se transformou na atual A. do Estado e casas do Brás e Pari.


Foto tirada da esquina do largo do Carmo em direção à Várzea do Carmo, aproximadamente entre 1890 e 1900.


Vista tomada dos fundos do antigo Palácio do Govêrno, em direção à inundada Várzea do Carmo, 1890. Tais inundações eram freqüentes até o atêrro da Várzea.


1860. Chácara Bresser ou Brás, do dr. Carlos Abrahão Bresser, cujo nome originou a atual Rua Bresser. Consta que o edifício da foto ainda existe.


Imediações do Carmo, em direção à Várzea, em 1860. Ao lado, a antiga muralha do Carmo. Ao fundo, a Várzea inundada pelo Tamanduateí.