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Entrevista
com Ismael Guiser
| Ballet do IV Centenário
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JÚLIA BANDEIRA
Ismael Guiser sempre foi apaixonado pela dança. Estudou esta arte
em Buenos Aires, cidade onde nasceu, e estreou profissionalmente como bailarino
solista em 1946 no Teatro Argentino de La Plata. Dançou na Itália,
Suécia e França. Ainda estava na Europa quando o húngaro
Aurel von Milloss o convidou a participar do Ballet do IV Centenário
de São Paulo. Chegou ao país em 1954 e, apesar de algumas
idas e vindas, escolheu a capital paulista para morar. Trabalhou nas principais
companhias estrangeiras e brasileiras, como o Ballet do Teatro Municipal
do Rio de Janeiro, Ballet Stagium, Balé da Cidade de São Paulo,
Ballet Teatro Cultura Artística, Ballet do Grand Théâtre
de Geneve (Suíça), Tanzforum-Köln (Alemanha), entre outros,
e se destacou como bailarino, professor e coreógrafo. Em 1982, fundou
na cidade de São Paulo o Ballet Ismael Guiser, onde leciona até
hoje, aos 77 anos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista com
o bailarino:
Ballet do IV Centenário
"Quando eu estava em Paris, Aurel von Milloss, contratado como coreógrafo
e diretor artístico pelo organizador do Ballet do IV Centenário,
o Ciccilo Matarazzo, me ligou e me convidou para ser solista do grupo.
Eu já tinha trabalhado com ele na Argentina, mas não estava
muito entusiasmado, pois minha carreira na Europa, devagarzinho, ia se
afirmando. Mas pensei em visitar minha família na Argentina, conhecer
o país e ver o que acontecia no Brasil. Queria dar um passeio pelo
trópico e voltar. Quando cheguei, faltavam pessoas mais entrosadas
com o mundo da dança. Como tive grandes professores, pude ajudar.
O Ballet do IV Centenário, apesar de ter feito uma excelente temporada,
fracassou como companhia permanente, pois nem o Jânio Quadros, o
governador e o presidente não chegaram a um acordo quanto nosso
futuro. O Jânio era totalmente contra, achava que não era
o momento, que as pessoas precisavam de outras coisas. Imediatamente,
fui para o Museu de Arte (como o Masp era chamado) e fundei, junto
com o Abelardo Figueiredo, o Ballet do Museu de Arte. Trabalhamos uma
temporada, mas o Chateaubriant (Assis Chateaubriant) não
estava disposto a investir em nosso grupo. Aí, fui para o Rio de
Janeiro e trabalhei uma temporada, mas logo voltei pra São Paulo,
pois a cidade me chamava."
Paixão pelo Brasil
"Naquela época, eu não me apaixonei pelo Brasil,
mas aqui eu tinha muito trabalho, era muito solicitado e as pessoas me
valorizavam. Achei que, na Europa, eu não ia ter a carreira que
estava fazendo no Brasil e que ficar ia ser melhor. Fui embora três
vezes. Na Argentina, por dois anos, trabalhei na televisão. Voltei
para a Europa por um ano e meio quando eu recebi uma bolsa de estudos.
Também fui para Colônia, ser professor de dança na
Companhia Oficial. Mesmo assim achei que a troca não era o melhor.
No Brasil, tinha o calor humano, clima, pessoas, amigos. Finquei as bases
aqui e agora, na minha idade, já é mais difícil pensar
em me transferir. Mas, às vezes, quando vejo a falta de estrutura,
de seriedade e, por vezes, de respeito, balanço diante propostas
mais interessantes na Europa. Mas no final eu sempre decido que aqui é
melhor. É melhor artisticamente, pois aqui os bailarinos são
considerados artistas."
A dança há 50 anos
"A concorrência era muito menor: bastava ser homem,
ter 1,80 metros. Mesmo não sendo um grande bailarino se fazia carreira.
Hoje, tem que trabalhar mais. Neste projeto dos 450 anos, tive que contratar
16 bailarinos e 16 bailarinos/professores que iriam para a periferia,
aos CEUS (centros de educação criados por Marta Suplicy)
e nas Febems para fazer dança-educação. A pré-audição
teve aproximadamente 200 bailarinos. Selecionamos 71 para a audição.
Todos têm capacidade para fazer parte da companhia. Isso não
aconteceria há 50 anos em São Paulo. Sou um pioneiro, pois
formei bailarinos no mundo inteiro. Os bailarinos de 50 anos atrás
não tinham o preparo dos de hoje. Não existia no Brasil
a quantidade de bons professores que temos atualmente. O que nós
não temos aqui é uma estrutura para formar conjuntos institucionais.
De qualquer maneira, a dança mudou muito no Brasil e no mundo."
Ballet 450
"Eu peguei o barco andando. A Delma Nogueira é a autora
do projeto. Estou na parte artística e não na organização.
A Petrobras já concordou em patrocinar a companhia. Assim como
o Banco Rural e a Vivo, outras empresas vão colaborar. Além
de mim, há outros diretores, uma psicóloga, um terapeuta,
a Delma, o Abelardo Figueiredo, que é o responsável pelo
gala inicial. O mais difícil já aconteceu: a aprovação
das verbas. Inicialmente, a idéia era que o projeto durasse 18
meses, com a possibilidade continuidade se houver boa vontade oficial."
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