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![]() ISA LEAL Eis aqui um cantinho de futilidade e de brejeirice, entre tanta coisa interessante e séria. Eis aqui em recanto de sonho (sempre que uma mulher pensa em um lindo chapéu, não sonha acordada um sonho de felicidade?), um território livre de frivolidade, em que não entram considerações científicas, intelectuais nem artísticas. Aqui estará presente, evocada em traços despretensiosos, a moda de nossas avós, a elegância que lhes custou, como nos custou a nós, os maiores sacrifícios, as maiores dedicações. Como a nós? Não, muito mais! O encanto de que se cercavam lhes custava muito mais, para sua própria felicidade, para o domínio de masculinos corações. Ora, faz-de-conta que acompanhamos tudo quanto fazia uma elegante do início do século. Vamos anular o tempo, e imaginar que estamos nos preparativos para um baile. Como foi complicada a escolha do vestido! Antes de mais nada, foi necessário descobrir quem possuía um figurino. E figurino, em São Paulo no começo do século, não estava em tòdas as bancas de esquina. Figurino vinha de Paris, assim como quase tudo o que fazia a felicidade das elegantes. (As mais ricas mandavam buscar o vestido pronto...). Eram raríssimos os exemplares de figurinos, e êstes também não eram muitos: "La Saison", "Saison de la Mode", "La Mode Illustrée". Foi bem mais tarde que "La Saison" foi editada no Brasil, traduzido seu nome, literalmente para "A Estação". Depois de escolhido o feitio, outra complicação: qual a fazenda? Molmol, cassa bordada, tarlatana? para moça solteira, a côr estava naturalmente escolhida, era quase sempre o branco. Tais fazendas eram transparentes, mas, pudicamente, levavam sempre um fôrro, a que se chamava "sombra". Sob o vestido branco, a jovem elegante de 1904 usava uma sombra còr de rosa ou azul. O decote por via de regra, parava no pescoço. Mesmo para dançar, a garòta só exibia seu lindo pescoço, e nada mais. Entretanto, o decote das casadas, muito mais ousado, descia com freqüência... dois ou três dedos além. As mangas eram curtas. Não passavam do cotovelo, ponto de encontro com as luvas de pelica. E, sem luvas de pelica, ninguém ia a um baile. Quem teria a coragem, a imodéstia de dançar com as mãos nuas? Só se tocavam levemente as mãos nuas durante a quadrilha: "main gauche à main gauche!". Por isso, dançar a quadrilha era uma coisa excitante, maravilhosa, quase um prazer proibido! Mas, faz-de-conta que estamos entrando num dos salões da época, num dos clubes mais finos: "Primavera", "Ideal Clube", "Internacional". A moça que sobe as escadas ouvindo, comovidíssima, a orquestra que já executa "La file de Madame Angot", tem o coração aos pulos, por mil e um motivos. O primeiro - inconfessável! - é que passou um pouco de pó de arroz. Ah, não devia ter feito isso! Agora vai ficar preocupada o tempo todo, pensando: - Estarão percebendo? - E isto vai estragar o baile... e sobretudo a quadrilha! A moça esta vestida de tarlatana, e, se uma rosa se transformasse em mulher, sem dúvida teria escolhido aquêle vestido, e teria aquêle mesmo tom nas faces... (Mas, como sobe um calor ao rosto, só de pensar que podem perceber o pó de arroz!) E aquela casaca, logo abaixo daquele bigodinho, que agora se aproxima para solicitar o "carnet"! Outras casacas cercam-na. A moça fita a primeira como se nunca tivesse visto o seu portador. E ninguém imaginaria que, há dois meses, suas noites não conhecem sono, por pensar neste momento, neste bigodinho, nesta quadrilha! Ela mal o olhou: mas bem reparou que suas luvas são impecáveis, que o talhe de sua casaca está perfeito. A garôta 1904 usa seu leque. Por causa do calor? Não, a Paulicéia já usava garòa, naquele tempo... Mas é que, se o leque não precisa diminuir a temperatura da garôta que o maneja, serve para elevar a do rapaz que contempla o manejo... Agora, a moça passeia pelo salão, ao lado do moço de bigodinho. Momentos raros, preciosos, perfeitos demais para serem expressos em palavras. São forçados a passear porque não iriam conversar num canto, o escândalo seria enorme. Passeiam, enquanto o mestre-sala está organizando as quadras, e ainda falta um par. Lá vai o mestre-sala, nervoso, pelo salão, a desentocar no extremo oposto aquèle solteirão que se julga aposentado para o exercício das danças, ou aquèle avô que julgava ter direito ao sossègo, enquanto a neta se divertia. (Santo Antônio, fazei com que o mestre-sala custe a encontrar o par que falta!). O sinal para o começo da quadrilha! Formaram-se tôdas as quadras, o mestre-sala diz bem alto: "Main gauche à main gauche!". E lá vai ela a deliciosa garôta 1904, tôda rosa e branca, dando o espetáculo de sua graça, da sua mocidade. Ela é, neste segundo, como será sua neta, dentro de cinqüenta anos, a própria beleza... |
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