Espanha e Holanda não duelam “apenas” pelo título da Copa do Mundo, inédito para ambas, no domingo em Joanesburgo. Lutam contra um estigma incômodo de sempre “amarelarem” em decisões quando são favoritas. E neste quesito as duas seleções estão praticamente empatadas. A Espanha pela quantidade de vacilos e a Holanda pela importância dos mesmo.
O histórico e a realidade depõe contra as duas equipes no Mundial da África do Sul. Ambas tem motivos de sobra para serem apontadas como favoritas ao título e para “amarelar” mais uma vez. Ocorre que uma delas poderá tremer menos e ficar com o troféu mais cobiçado pelos dois países.
A Holanda não perde um jogo desde junho de 2008 e tem 14 vitórias seguidas em jogos oficiais, eliminatórias e Copa. O suficiente para lhe render a pecha de favorita. A Espanha de Del Bosque desembarcou na África do Sul como virtual campeã do mundo, com um título da Eurocopa de 2008 na bagagem e chega na final após tirar a poderosa Alemanha na semi, sensação do torneio.
Fúria – difícil é entender o apelido
Difícil imaginar que um país com times vencedores como Real Madrid e Barcelona, conviva com o fato de não ter um Mundial de seleções no currículo. A “síndrome de fases finais” é algo que perturba a Espanha a cada quatro anos. Algo semelhante ao “complexo de vira-latas” criado pelo escritor Nelson Rodrigues por ocasião de nossa derrota em 1950 e posterior eliminaçao em 1954.
Em todos as Copas que disputou, 13 com esta, “a Fúria” – pelo retrospecto fica difícil entender o apelido – conta com “amareladas” inexplicáveis. Em 1962 a federação espanhola naturalizou três craques, o húngaro Puskas, o uruguaio Santamaría e o argentino Di Stéfano, para finalmente conseguir o topo, mas teve Brasil e Tchecoslováquia no caminho e deu adeus ainda na primeira fase. A Hungria sem Puskas, foi até as quartas.
Quatro anos mais tarde, chegaria na Inglaterra credenciada como uma das favoritas ao título por ter vencido a Eurocopa de 64, mas abriu mão dos estrangeiros naturalizados e dançou outra vez na primeira fase, perdendo para Argentina e Alemanha.
Na Copa de 1982, fizeram feio em casa, 12º lugar após eliminação na segunda fase. Em 86, o time chegou ao México invicto fazia um ano, era vice campeão europeu e tinha Butragueño como estrela. A invencibilidade caiu na estreia contra o Brasil, derrota por 1 a 0. Depois e ganhar de Irlanda do Norte e Argélia na fase de grupos, enfiou 5 na “dinamáquina” na oitavas, quatro gols de Butragueño. Diante da Bélgica, nas quartas, empate em 1 a 1 e despedida nos pênaltis por 5 a 4. Pfaff pegou a cobrança de Señor.
Nos Estados Unidos, em 94, sofria da “síndrome dos estrangeiros” em seus clubes e foi com um time de reservas. A Fúria passou da primeira fase com dois empates, Coreia do Sul e Alemanha, e uma vitória contra a Bolívia. Nas oitavas ganhou da Suíça e deu adeus outra vez nas quartas contra a Itália. Na primeira Copa do Casillas e de Puyol, tinha nos craques Hierro e Raúl a esperança de vencer. Parou, é bem verdade, no árbitro egípcio Ghamal Ghandour no jogo contra a Coreia do Sul nas quartas. Teve dois gols legais anulados, o segundo deles na prorrogação após 0 a 0 no tempo normal.
Camaleão
A boa equipe dirigida por Bert Van Marwijk terá que superar a fama de “pipoqueira”. Sempre que chegou com chance de levantar o troféu numa Copa do Mundo, a “laranja mecânica” mudou de cor. A Holanda disputa sua nona Copa do Mundo e, nas oito anteriores, foi vice-campeã em duas, 1974 e 1978, e semifinalista em 1998. Saíram nas quartas-de-final em 1994 e nas oitavas e em 1990 e em 2006, tendo time para ir mais longe, principalmente nas campanhas em 74, 78, 90 e 98.
Dirigida por Rinus Michels, a Holanda de 1974 foi a que chegou mais perto de ser campeã. O time que encantou o planeta contava com Johan Cruyff, Neeskens, Rensenbrink, Rud Krool, Rep e revolucionou o esporte com o “futebol total” ou “carrosel holandês”.
Na final, saiu na frente da Alemanha, dona da casa, aos 2 minutos de jogo após trocar 15 passes até Cruyff sofrer pênalti – controverso. Talvez por solidariedade este time tenha sido “perdoado” pelos críticos que preferem exaltar a eficiência do “futebol pragmático” alemão. Bobagem, perderam por 2 a 1 na bola com show de outro timaço liderado pelo primeiro líbero do futebol mundial Franz Beckenbauer, que contava ainda com Gerd Muller e Paul Breitner, entre outros.
Na Argentina, quatro anos mais tarde, nova “amarelada” na final. Com praticamente o mesmo time da Copa anterior, mas sem seu principal astro, Cruyff, que se recusou a viajar por divergência com dirigentes da federação local, sucumbiu outra vez diante da pressão de enfrentar os donos da casa. Deu mais trabalho aos argentinos, empatando o jogo no tempo normal aos 37 da etapa final, mas não aguentou e perdeu por 2 a 0 na prorrogação.
Voltaria a disputar um Mundial somente em 1990, na Itália, com a credencial de campeã da Europa dois anos antes. Era uma nova edição da laranja mecânica, formada por uma geração de craques que formariam em qualquer seleção: Van Basten, Rud Gullit, Frank Rijkaard e Koeman. E veio mais um fracasso, dessa vez nas oitavas de final. Outra derrota por 2 a 1 para a Alemanha de Beckenbauer, que era o treinador dos germânicos.
Em 1994, a geração mais “madura” e sem Van Basten não resistiu ao Brasil de Romário e Bebeto e deu adeus nas quartas-de-final ao perder por 3 a 2. Denis Bergkamp, Frank Rikaard, Ronald e Frank de Boer também não levantaram o troféu. Veio então 1998, com Vaan der Sar no gol, os irmãos de Boer, Bergkamp, Davids, Cocu, Overmars e Kluivert e o vencedor Guus Hiddink como técnico. Após bater a Argentina de Batistuta, Verón, Ortega e Simeone por 2 a 1, encontrou o Brasil de Ronaldo, Rivaldo e Taffarel. Empate em 1 a 1 e derrota nos pênaltis: 4 a 2 Brasil e mais uma volta frustrante para casa.
Confira o desempenho em Copas das duas finalistas do Mundial da África do Sul:
Espanha:
1934 – 5º lugar (quartas de final)
1950 – 4º lugar (semifinal)
1962 – 12º lugar (primeira fase)
1966 – 10º lugar (primeira fase)
1978 – 10º lugar (primeira fase)
1982 – 12º lugar (segunda fase)
1986 – 7º lugar (quartas de final)
1990 – 10º lugar (oitavas de final)
1994 – 8º lugar (quartas-de-final)
1998 – 17º lugar (primeira fase)
2002 – 5º lugar (quartas-de-final)
2006 – 9º lugar (oitavas-de-final)